SOBRE AS ABELHAS AFRICANIZADAS COMO O ANIMAL MAIS PERIGOSO DAS AMÉRICAS, EM 31/01/2010, E SOBRE O PAPEL DAS ABELHAS APIS MELLIFERA (ABELHAS AFRICANIZADAS) NA APICULTURA E NA AGRICULTURA.
1. - A abelha não é o animal que mais mata. Depois do homem, o animal que mais mata é o pernilongo, responsável por dois a três milhões de mortes/ ano no mundo, principalmente por causa da malária (dados do CDC – Centro para Prevenção e Controle de Doenças dos EUA e o AMCA – Associação Americana para o Controle de Mosquitos); esta doença também mata muita gente no Brasil.
Nos EUA, cervos provocam a morte de uma média de 130 pessoas/ano, enquanto que abelhas matam em torno de 50 pessoas/ ano por causa de alergia às picadas. Apesar de todo o alarde, as abelhas africanizadas nos EUA têm sido responsável por 1-2 mortes/ ano. Essas abelhas chegaram aos EUA em 1990.
2. - As abelhas africanizadas não foram criadas em cativeiro, nem inventadas no laboratório. As abelhas africanizadas sugiram no campo no Brasil. Abelhas africanas, mantidas em um apiário experimental localizado em Rio Claro, SP, desde 1956, escaparam em 1957. Estas abelhas foram trazidas da África e cruzaram-se com abelhas Apis mellifera européias, que já haviam sido introduzidas anteriormente no Brasil (com a vinda da família real para o Brasil). O resultado destes cruzamentos nos apiários e na natureza foi uma abelha com características diferentes das outras já conhecidas, e que foi então chamada de abelha africanizada (AHB=Afrecanized Honey Bee ). Este processo de africanização ocorreu no Brasil, na natureza, de 1957 até o final dos anos 70 com maior intensidade , e hoje na natureza somente existem abelhas africanizadas.
3. A abelha africanizada não é uma nova espécie – é o produto do cruzamento da abelha Apis mellifera da África (Apis mellifera scutellata) com raças de abelhas européias. Devido ao clima tropical e subtropical do Brasil, predominam as características das abelhas africanas. A reportagem refere-se a esta abelha como uma espécie que não existia. Entretanto, a espécie Apis mellifera abrange tanto as abelhas africanas, como as européias; havendo fósseis das abelhas desta espécie com cerca de 35 milhões de anos.
4. O grande número de enxames produzido pelas colônias de abelhas africanizadas foi mencionado. No entanto, embora as colônias dessas abelhas se multipliquem através de enxameação, o número de colônias em uma determinada área se mantém estável por causa de limitações ambientais de comida e abrigo, que é natural a qualquer animal que tem uma vida silvestre. A expansão das áreas agriculturáveis sem a manutenção da reserva legal expulsa as abelhas do campo, com a conseqüente entrada de enxames na cidade, onde encontram locais de nidificação abundante e disponibilidade de alimentos.
5. Quando as abelhas sentem um perigo, o objetivo principal delas é proteger o ninho, afastando o agressor. Algumas abelhas ferroam o intruso, e em seguida morrem. Mas ao deixarem o ferrão no inimigo, este fica ligado a uma pequena glândula que solta um perfume (feromônio de alarme), que atrai outras abelhas da colméia para o mesmo local. Se
o agressor não for embora, mais abelhas vem ferroar, aumentando a quantidade de feromônio de alarme. Por isso, uma pessoa, ao ser atacada, deve se afastar o mais rápido possível. O ataque focalizado na entrevista, na região do rosto do cinegrafista, foi devido à filmadora de cor negra, que estimula a agressividade das abelhas. Na verdade as abelhas não priorizam o rosto; elas tendem a atacar áreas escuras. No vídeo exposto na televisão as abelhas não atacaram as pernas e botas do cinegrafista porque estas eram brancas, tendo sido possível observar o ataque delas em todas as partes escuras da câmara e da máscara de apicultor que apresentava tela de malha escura. Se o cinegrafista estivesse com calças, meias ou sapatos escuros, certamente as abelhas iriam atacar estas áreas também. Quando possível as pessoas tem que se afastar rapidamente e, de preferência, em zig-zag ou passando por vegetação alta para despistar as agressoras. Outro método é tentar entrar em algum lugar protegido como, por exemplo, um carro e fechar todos os vidros, ou em uma casa ou outro abrigo escuro.
6. Para uma pessoa alérgica basta uma picada para ocorrer uma reação, inclusive pode haver um edema de glote, o que impede a pessoa de respirar, podendo ocorrer sua morte caso não seja atendida em tempo. O mesmo ocorre para uma ferroada de vespa e de outros insetos que tem ferrão, no caso de indivíduos muito sensíveis aos venenos liberados.
7. Foi dito que o enxame carrega a rainha, o que nunca ocorre. Na verdade, a rainha também voa junto com o enxame, quando a colônia se divide ou migra.
8. A reportagem mencionou que as abelhas africanizadas mataram 200 pessoas no México em 5 anos, logo que chegaram naquele país (40/ano). Nesta mesma época, a mortalidade naquele país por causa de escorpiões foi em torno de 2.000/ano. No entanto, à medida que os apicultores e o público aprenderam a lidar com as novas abelhas, os ataques diminuíram muito. Atualmente, o numero de mortes por ano por causa das abelhas Africanizadas é de em torno de 6 ( registros nos anos 2006-2009). Estes são dados oficiais do programa da abelha da SARH (Secretaria da Agricultura e Recursos Hidráulicos do México). Os escorpiões continuam matando muito mais gente no México do que as abelhas.
9. Há um trecho da reportagem que fala da competição por locais de nidificação no pantanal, reduzindo os locais para pássaros e periquitos nidificarem. Isto pode estar realmente acontecendo, porém é um reflexo direto do desmatamento e das expansões de áreas de culturas. A retirada das árvores grandes acaba diminuindo o número de cavidades naturais onde tanto os pássaros como as abelhas nativas brasileiras (sem ferrão) e as abelhas africanizadas podem fazer ninhos.
10. É importante ser comentado que o público que assistia à entrevista, no auditório, ao ser argüido sobre qual o animal que mais mata no Brasil, jamais se referiu às abelhas. Na verdade as abelhas africanizadas infelizmente já causaram vários óbitos de animais e seres humanos no Brasil desde sua chegada ao país, principalmente nas décadas de 60 e 70, porém nas últimas três décadas felizmente os acidentes se reduziram consideravelmente. Esta redução de óbitos deu-se devido ao melhor conhecimento e manejo dessas abelhas, não sendo mais motivo de alarme, como o que ocorreu na recente entrevista na TV, embora acidentes podem continuar ocorrendo principalmente por
negligência. Atualmente o público reconhece a importância das abelhas como polinizadores de cultivos e produtoras de mel, própolis e pólen, produtos valorizadas para a saúde humana.
COMENTÁRIO SOBRE O PAPEL DAS ABELHAS APIS MELLIFERA (ABELHAS AFRICANIZADAS) NA APICULTURA E NA AGRICULTURA BRASILEIRA
A apicultura brasileira pode ser dividida em duas fases. A primeira correspondeu ao período anterior ao da introdução das abelhas africanas (Apis mellifera scutellata) no país em 1956. Esta fase se caracterizou por uma atividade de criação de abelhas Apis mellifera vindo da Europa e explorada principalmente como hobby.Estas abelhas, pouca adaptadas ao nosso clima, apresentavam baixa produtividade de mel (produção nacional de mel do Brasil na época não era superior a 5.000 toneladas/ano). A segunda fase ocorreu após a introdução das abelhas africanas em 1956, até os dias atuais, que correspondeu ao período de africanização (cruzamento das abelhas africanas com as raças européias que aqui foram introduzidas anteriormente) e dispersão pelas Américas.
Esta segunda fase teve inicialmente um impacto muito negativo, com baixa produção de mel, muitos acidentes e abandono da atividade apícola por parte de muitos apicultores, devido à falta de experiência de como manejar essa nova abelha híbrida da raça africana e da européia. Nesta ocasião, ocorreram sérios problemas sociais devido principalmente à sua alta agressividade .
Gradativamente os apicultores foram se adaptando à nova abelha resultante destes cruzamentos naturais, conhecida como a abelha africanizada (poli-híbrido entre as africanas e as européias, não havendo hoje outro tipo de abelha no país).
Atualmente a Apicultura no Brasil encontra-se em franco progresso. A agressividade das abelhas (hoje vista como a capacidade de defesa) já não é tema principal nos congressos brasileiros de apicultura, sendo as abelhas africanizadas brasileiras consideradas como boas produtoras de mel e altamente resistentes a doenças. Devido a essas características, o país não precisa investir na compra de acaricidas nem de antibióticos, dessa forma a grande parte da produção apícola nacional é de mel orgânico por não apresentar resíduos químicos.
Nos últimos 20 anos a apicultura desenvolveu-se muitíssimo em todo o Brasil, principalmente nos estados do nordeste (Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Bahia, etc.) considerados hoje como “o mar de mel do país”. Atualmente o Brasil é um grande produtor e exportador de mel, com uma produção anual de 50.000 toneladas /ano, sendo incluindo entre os grandes exportadores do produto (em 2009 foram exportadas 26.000 toneladas de mel). O nordeste brasileiro é responsável por aproximadamente 30% das exportações de mel do país, o que traz uma renda extra ao habitante local.
Por outro lado, é muito importante ser destacado que o maior papel das abelhas Apis mellifera para o homem não é a sua produção de mel e sim o seu trabalho de polinização das plantas. As abelhas, voando de flor em flor, para buscar o néctar e o pólen para a sua alimentação e de suas crias, também realizam um importante serviço ambiental: a polinização das flores, que resulta na fecundação e no conseqüente desenvolvimento de frutos e sementes. Por isso, as abelhas são muito utilizadas para a polinização agrícola.
Somente nos Estados Unidos as abelhas Apis mellifera polinizam 95 culturas diferentes, o que significa um rendimento de US$10 bilhões/ano. Este resultado, em termos monetários, é muito significativo, especialmente quando comparado com a produção de mel para os apicultores, avaliada em US$ 200 milhões por ano. Na medida em que a sociedade se conscientiza desta situação valoriza-se a utilização das abelhas para a polinização. Este quadro evidencia que, no futuro, haverá uma grande demanda de abelhas para a polinização agrícola.
Os serviços ambientais prestados pelos polinizadores, entre eles as abelhas melíferas, são enfatizados e estudados por especialistas de todo o mundo. O declínio das abelhas melíferas no Hemisfério Norte e o fenômeno do desaparecimento das abelhas são motivos de preocupação pelos tomadores de decisão ligados à agricultura e segurança alimentar. Afinal, este serviço é responsável, globalmente, por 9,5% do valor da agricultura mundial.
O declínio global dos polinizadores tem sido tema de vários estudos e ações específicas, como a Iniciativa Internacional de Polinizadores, aprovada pela Convenção da Diversidade Biológica em 2000. Um destes estudos, entretanto, nos pareceu muito oportuno divulgar nesta ocasião. Segundo os dados da FAO (Food and Agricultural Organization, das Nações Unidas), as colônias de Apis mellifera manejadas tanto para produção de mel quanto para uso na polinização aumentaram globalmente cerca de 45% desde 1961, apesar do enorme declínio recente das colônias dos Estados Unidos (35% só em 2008) e na Europa. Entretanto, o crescimento da agricultura dependente de polinizadores é maior do que 300% nos últimos 50 anos! Em países menos desenvolvidos, onde há grande produção de frutas e legumes, esta dependência é ainda maior.
Infelizmente o homem está destruindo a natureza, devastando-a e utilizando agrotóxicos que acabam dizimando as abelhas, causando inclusive o seu desaparecimento ou morte, fenômeno atualmente conhecido como “colapso das abelhas ou desaparecimento das abelhas”. Várias são as causas desse colapso, porém de suma importância são os agrotóxicos, principalmente os neonicotinóides usados na agricultura em vários países, inclusive no Brasil.
O desaparecimento das abelhas tem sido um tema amplamente discutido em várias partes do mundo, tendo sido motivo inclusive de reuniões especiais de cientistas de várias partes do mundo, como ocorreu recentemente nos dois últimos congressos da Federação Internacional de Apicultores - Apimondia ocorrido na Austrália (2007) e na França (2009). A convenção da Diversidade Biológica também vai tratar deste tema na reunião COP10. Neste ano, quando comemoramos a Biodiversidade, vale a pena uma reflexão profunda sobre o assunto aqui abordado. Convidamos a todos que considerem a importância dos serviços ambientais executados pelas abelhas, e o valor de seus produtos para o homem e para as áreas naturais.
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